O plano diretor de tecnologia é importante, mas é o menor dos problemas de um prefeito. O que um prefeito precisa é conceber e conduzir os projetos de uma gestão até o impacto real: diagnosticar, priorizar, planejar, captar, contratar, executar, prestar contas e mostrar resultado. O plano é um dos fios dessa trama, e só funciona se estiver costurado nos demais.
A pergunta deste artigo é como a prefeitura compra essa costura: ferramenta por ferramenta, ou uma plataforma de planejamento municipal que já a traz.
Como a prefeitura compra hoje
O Estudo Tecnologia, da Ana Smart Solutions (setembro de 2026), consultou o Portal Nacional de Contratações Públicas em doze buscas temáticas, consolidadas em nove temas: LGPD, plano diretor de tecnologia, SUS Digital, transparência ATRICON, ODS, IEGM, cidades inteligentes e ISO 37120, captação de recursos e gestão de projetos.
Na compra:
- São 617 registros de contratos, consolidados em 573 contratos distintos. Em 530 deles, 92,5%, o objeto cobre um único tema.
- Entre os 231 executivos municipais contratantes, 183 (79,2%) contrataram um único tema. A média é de 1,24 tema por município. Nenhum contratou mais de 4 dos 9.
- Entre os municípios paulistas localizados, 35 de 47 (74,5%) contrataram um único tema.
Na oferta:
- São 337 fornecedores distintos, identificados por CNPJ. Destes, 304 (90,2%) atuam em um único tema.
- O máximo observado é de 4 dos 9 temas, por um único fornecedor.
Na duração:
- A vigência mediana é de um ano, e 93,7% dos contratos terminam em até doze meses.
O PNCP é a base oficial de contratações do Brasil, e a divulgação de editais e contratos nele é obrigatória desde a Lei 14.133/2021. Partindo do princípio de que os entes cumprem a lei, a conclusão é direta: ninguém contratou, nessa base, uma solução que reúna as frentes. Não existe o produto nem a contratação. O que existe são poucas abordagens, cada uma cobrindo um tema.
O concorrente é uma funcionalidade
Isso não quer dizer que falte quem faça cada parte. Um contrato municipal de 2025, por exemplo, tem como objeto a frente de vínculo ao IEGM, e há fornecedores de LGPD, de transparência, de gestão de projetos, de painéis.
O que existe, cada vez, é uma funcionalidade de uma aplicação muito maior. Hoje não existe no mercado uma ferramenta que reúna todos os módulos e funcionalidades, principalmente com integração total e ganho de escala.
A conta da alternativa
Para atender à prefeitura pelo caminho fragmentado, seria preciso:
- Comprar cada ferramenta separadamente: uma para o plano, outra para LGPD, outra para captação, outra para projetos, outra para indicadores.
- Comprar uma plataforma de integração, para que as ferramentas conversem entre si.
- Comprar o trabalho de customizar e integrar: mapeamentos, conectores, testes, ajustes.
- Correr o risco de o conjunto não atender, porque a integração costurada é frágil, depende de quem a fez, e quebra a cada atualização de uma das partes.
Essa conta raramente aparece no estudo técnico preliminar. Cada contrato é avaliado por si, e o custo da costura fica invisível, distribuído entre a TI, as secretarias e o tempo de quem tenta fazer os sistemas conversarem.
Plataforma de planejamento municipal: o que o DIRECITY GOV reúne
O DIRECITY GOV é uma plataforma integrada de governança municipal, com 29 módulos organizados em dez frentes (catálogo de agosto de 2026). O plano de tecnologia é uma das funções. As demais cobrem o ciclo inteiro de uma gestão: diagnosticar, priorizar, captar, contratar, executar, prestar contas e mostrar resultado. Cada frente responde a uma pergunta que o prefeito faz.
| Frente | Pergunta do prefeito | O que a plataforma tem hoje |
|---|---|---|
| 1. Cortar desperdício | Onde estamos perdendo dinheiro? | Fila de auditoria com triagem humana de achados gerados por IA, matriz de descoberta de gastos de TI e importação direta dos dados do TCE SP |
| 2. Reduzir o custo da máquina | O que pode ficar mais barato? | Raio-X financeiro do investimento em TIC por macrogrupo, com reconciliação entre o declarado ao tribunal e o auditado, e benchmark de preços com o PNCP Analytics |
| 3. Achar dinheiro | Que recurso ainda não usamos? | Recursos do Fundo Nacional de Saúde, emendas parlamentares federais, convênios federais e parcerias do Transferegov, com identificação do recurso formalizado que ainda não teve empenho nem pagamento |
| 4. Aumentar receita | Onde arrecadamos menos do que poderíamos? | Em desenvolvimento: radar de eficiência fiscal e tributária |
| 5. Aumentar a atratividade econômica | O que podemos captar de investimento? | Banco de ideias e Viabilidade Studio, com VPL, TIR, payback e comparação de valor entre execução direta e PPP. Em desenvolvimento: minutas de chamamento, atas e concessão, e monitoramento de PPP |
| 6. Priorizar investimentos | O que dá para fazer sem quebrar o caixa? | Gestão de projetos e PPP com Kanban e Gantt, inventário de necessidades com matriz GUT, matriz de vínculos com o plano de governo e painel fiscal da LRF |
| 7. Evitar perda | Onde podemos perder dinheiro ou tomar apontamento? | Matriz de riscos com mapa de calor, referenciada à ISO 31000 e à ISO 27005, e todo o Compliance Hub |
| 8. Entregar resultado | Como executar e provar o resultado? | Dashboard executivo e exportação do plano completo em Word |
| 9. Preparar a cidade para certificação | Como comprovar que a cidade é inteligente? | Indicadores das ISO 37120, 37122, 37123 e 37125, e dos ODS, com projetos desenhados para atingir esses indicadores |
| 10. Atrair investimento privado | Como transformar resultado comprovado em capital privado? | Dossiê composto pelo dashboard e pelo Viabilidade Studio |
Por baixo das frentes há quatro blocos que sustentam o resto.
O Compliance Hub reúne nove telas de conformidade: painel fiscal com os limites da LRF, simulador do IEGM nas sete dimensões, transparência ATRICON e PNTP item a item, checklist de LGPD com evidências, SUS Digital, indicadores ISO 37120, 37122 e 37123, indicadores ESG da ISO 37125, indicadores dos ODS e um repositório de melhores práticas com minutas e modelos de documentos ligados a cada quesito.
O PNCP Analytics lê o Portal Nacional de Contratações Públicas e o Compras.gov.br. Faz a pesquisa de preços conforme a IN SEGES 65/2021, com mapa de preços em Excel e memória de cálculo em Word, compara o que a prefeitura paga com o que o mercado pratica e ajuda a detectar fracionamento de despesa.
A fundação do plano cobre o preâmbulo assistido por IA, a matriz SWOT, a governança com o comitê municipal de TI (minuta de portaria e atas de reunião), o plano de capacitação e o referencial estratégico ligado ao PPA.
O núcleo da plataforma traz o painel executivo, um assistente de IA que acompanha o usuário em todas as telas, perfis de acesso por função, a gestão de vários municípios e secretarias e um motor de IA que o próprio cliente pode configurar.
Os módulos podem ser vendidos separadamente. Mas há economia quando são agrupados e integrados, e a integração faz com que as ferramentas deixem de ser separáveis: o dado de uma sustenta a outra.
- Quem compra o plano sem o acompanhamento de projetos recebe um documento.
- Quem compra o acompanhamento de projetos sem o diagnóstico começa do zero.
- Quem compra a captação sem o plano de prioridades capta sem rumo.
- Quem compra a conformidade com a LGPD sem o inventário de sistemas descreve o que não conhece.
O ganho é em escala: cada módulo acrescentado aproveita o dado dos demais.
Os cinco elos da indissociabilidade
O estudo organiza a demonstração em cinco elos, cada um com evidência própria:
- Insumo compartilhado: as frentes consomem a mesma pessoa, o mesmo dado e a mesma evidência. Entre os municípios pequenos, 60,6% têm zero ou uma pessoa em tecnologia.
- Co-ocorrência: quem tem uma frente tende a ter as demais. Em 50 de 50 pares de indicadores testados, a diferença é positiva no universo de 644 municípios, e em 49 a diferença é significativa. Isso é associação, e a leitura é que a posse de um instrumento marca capacidade de gestão.
- Compra fragmentada: o município compra uma obrigação por vez.
- Oferta fragmentada: o mercado não oferece a coordenação.
- Consequência: a fragmentação aparece como obra parada, prazo perdido e prêmio de risco, segundo fontes institucionais como o FMI e o TCU.
Módulo avulso ou pacote
Para o gestor, a decisão prática tem três caminhos:
O primeiro é começar por um módulo, seja plano, captação, LGPD ou projetos. O módulo funciona sozinho. O ganho de escala aparece quando o segundo e o terceiro entram.
O segundo é contratar o conjunto. Quando o município quer conduzir a gestão inteira, a integração desde o início evita o retrabalho da costura posterior.
O terceiro é entrar por assessoria assistida por plataforma. Quando já existe uma contratação em curso, como assessoria em TIC ou em LGPD, a plataforma pode entrar incluída no preço do serviço, como instrumento de execução.
Em qualquer caso, o estudo técnico preliminar deve registrar as alternativas: ferramentas avulsas com integração, de um lado, e plataforma integrada, de outro, com a conta completa de cada uma.
O que este artigo não afirma
Não afirma economia em números, porque não há base de despesa municipal para estimá-la. Não afirma que integrar eleva a nota do IEGM, porque o desenho do estudo é transversal. Afirma o que o levantamento observa: a oferta e a compra estão fragmentadas, e a integração é o que falta.
A premissa de produto: tecnologia invisível
Por trás dos 29 módulos há uma premissa de desenho. O DIRECITY GOV se apoia em conceitos de CX, DX (experiência digital) e experiência do usuário para eliminar a fricção no uso da tecnologia por gestores públicos. Isso importa porque o prefeito e o secretário não são, em geral, especialistas em tecnologia, e uma plataforma que exige especialista para ser usada vira mais uma ferramenta parada.
O objetivo é aproximar quem é leigo em tecnologia e inovação das melhores soluções e práticas, e tornar fácil o planejamento e a execução, com ações alinhadas às regras dos órgãos reguladores, apoiadas em normas internacionais e em eficiência. Na prática, é a plataforma que carrega a complexidade das fontes e das normas (IEGM, ATRICON, LGPD, SUS Digital, ISO), e o gestor que se concentra em decidir. Um dos objetivos é transformar a experiência do cidadão no uso dos serviços públicos: o cidadão passa a receber uma prestação de serviços melhor, e o prefeito colhe uma avaliação melhor. É uma premissa de desenho e um objetivo. O estudo não mediu a experiência de uso, e nenhuma implantação longitudinal foi medida até aqui.
Perguntas frequentes
O que o DIRECITY GOV faz além do plano de tecnologia?
Reúne 29 módulos em dez frentes: auditoria e custo da despesa, captação de emendas, convênios e recursos do FNS, projetos e PPP, riscos, conformidade com IEGM, ATRICON, LGPD, SUS Digital e ISO, pesquisa de preços e painel fiscal. O plano é uma das funções.
Qual a diferença entre plataforma integrada e ferramentas isoladas?
Nas ferramentas isoladas, cada módulo é comprado, integrado e mantido à parte. Na plataforma integrada, o dado de um módulo sustenta o outro, e a integração já vem incluída.
O gestor precisa entender de tecnologia para usar o DIRECITY GOV?
A premissa do produto é que não. A tecnologia deve ser invisível, para que o gestor planeje e execute sem enfrentar a complexidade técnica. É um objetivo de desenho, ainda sem medição de experiência de uso.
Posso contratar só um módulo?
Sim. Os módulos podem ser vendidos separadamente. O ganho de escala aparece quando o segundo e o terceiro entram.
Integrar os sistemas eleva a nota do IEGM?
Este artigo não afirma isso, porque o desenho do estudo é transversal. Afirma que a oferta e a compra estão fragmentadas, e que a integração é o que falta.
Fontes
- Estudo Tecnologia e Análise da Indissociabilidade das Frentes de Capacidade, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base no Portal Nacional de Contratações Públicas e nas respostas ao i-Gov TI, exercício 2024, do TCE SP.
- FMI, Brazil Public Investment Management Assessment, novembro de 2018. TCU, Acórdão 2600/2024 Plenário.
- Lei 14.133/2021.