Todo prefeito tem mil problemas na mesa: saúde, escola, zeladoria, folha de pagamento. Quando alguém fala em PDTI, a reação natural é empurrar a pasta para o canto. Entendido como um plano de informática, o PDTI parece mesmo o menor dos problemas de um prefeito.
Os números do estado de São Paulo mostram essa distância. De 644 municípios, 408 (63,4%) declararam ao Tribunal de Contas não possuir PDTIC. Entre os que declararam possuir, a revisão documental reuniu 133 artefatos, confirmou a identidade do plano em 79, a vigência em 2024 em 54 e encontrou documento próprio elegível em 48. No relatório de 29/09/2026, em 596 dos 644 municípios (92,5%), a cadeia documental completa não se fecha: o plano não existe, o link não abre, o documento não é o plano, ou o plano está vencido. No levantamento do Estudo Tecnologia, atualizado em 06/10/2026, 111 de 644 municípios (17,2%) têm documento elegível somando as camadas A e B, e 186 de 644 (28,9%) têm algum documento confirmado somando as camadas A, B e C.
Inferência: mesmo com essa atualização, 533 de 644 (82,8%) ficam fora da elegibilidade estrita, e 458 de 644 (71,1%) não têm nenhum documento confirmado.
Esse é o retrato de quem não tem. Quem tem, ou acabou de contratar, enfrenta outro problema.
Um PDTI que nasce como contratação de documento tem prazo de validade embutido. Ele é entregue, aprovado, assinado e arquivado. Na primeira troca de secretário vira PDF, e na primeira mudança de prioridade vira lembrança. Este artigo defende o PDTI vivo, aquele que funciona como instrumento de governo, com dono, indicador, orçamento, projeto e prova de execução. E defende mais: que esse instrumento deixe de ser um plano de informática e se torne o plano estratégico e diretor de tecnologia e cidade.
A fiação por trás da parede e o sistema nervoso da cidade
O PDTI nasceu como plano de informática. Inventariava computadores, sistemas e contratos da área de tecnologia, e o leitor dele era a própria área. Isso fazia sentido quando a tecnologia era ferramenta de escritório. Já não faz.
Olhe para a prefeitura como uma casa em que cada secretaria é um cômodo. Arrecadação, folha, prontuário médico, matrícula escolar, licitação, atendimento ao cidadão: tudo passa pela mesma fiação que corre por dentro das paredes. Hoje a tecnologia é essa fiação e o sistema nervoso da prefeitura. Ela capta (cadastros, protocolos, arrecadação, atendimento), transmite (redes e integração entre sistemas), apoia a decisão (painéis, indicadores, alertas) e executa (cada serviço que o cidadão acessa).
Quando um fio entra em curto ou um nervo falha, o que para não é a informática. Quem fica no escuro é a secretaria que ele atende e o cidadão no balcão. E nem fiação elétrica nem sistema nervoso se montam cômodo por cômodo: precisam de coordenação, de um quadro único de comando e de alguém responsável por ele.
Quem avalia a gestão municipal já mede essa dependência. Segundo o Estudo Tecnologia, da Ana Smart Solutions (setembro de 2026), aplicado aos 894 quesitos do IEG-M (o Índice de Efetividade da Gestão Municipal do TCE SP) e ponderado pela pontuação máxima, 83,9% da pontuação do IEG-M depende de tecnologia, somando a parcela mandatória e a habilitadora, e 47,3% simplesmente não existe sem ela, por ser tecnologicamente mandatória. Por dimensão, o peso mandatório chega a 89,5% no i-Fiscal, 71,5% no i-Plan, 62,7% no i-Saúde e 59,5% no i-Gov TI. A classificação entre mandatória, habilitadora e não tecnológica é autoral do estudo sobre os quesitos do tribunal. Soma-se a isso o retrato operacional do próprio TCE SP: 97,0% dos municípios paulistas oferecem serviço online e 98,9% têm software de gestão de processos, enquanto 155 não têm setor de TIC.
Por isso o objetivo deste artigo é mais amplo que manter um PDTI atualizado. É estabelecer, em cada município, um plano estratégico e diretor de tecnologia e cidade:
- Estratégico, porque parte do que a cidade quer alcançar, a partir do plano de governo, do plano plurianual, dos ODS e do IEGM, e não do que a área de tecnologia quer comprar.
- Diretor, porque organiza como a tecnologia se estrutura para chegar lá: governança, dados, infraestrutura, segurança, pessoas, contratos e projetos, cada um com responsável, prazo e orçamento.
- De tecnologia e cidade, porque o escopo não termina na porta da Secretaria de Tecnologia. Alcança os serviços das secretarias finalísticas e o que chega ao cidadão.
O relatório do estudo usa a sigla PEDTC para esse instrumento. Nada do que este artigo diz sobre o PDTI vivo é descartado: dono, linha de base, orçamento, execução e continuidade seguem sendo as condições para o plano funcionar. O que muda é a pergunta de partida. Em vez de "o que a tecnologia precisa comprar", passa a ser "o que a cidade precisa que a tecnologia sustente".
Um plano, muitos nomes, três escopos
A sigla muda conforme a esfera, o ano e o fornecedor, e isso confunde quem precisa contratar ou cobrar.
- PDTI é o Plano Diretor de Tecnologia da Informação. É o nome mais usado nos municípios.
- PDTIC acrescenta Comunicação. É a sigla consagrada na administração federal e a que aparece no questionário i-Gov TI do TCE SP.
- PDTCI é o Plano Diretor de Tecnologia e Cidade Inteligente. Amplia o escopo: deixa de olhar só a TI interna da prefeitura e passa a tratar a tecnologia como infraestrutura da cidade e dos serviços ao cidadão.
- Plano estratégico e diretor de tecnologia e cidade é o PDTCI tratado como instrumento estratégico: além de organizar a tecnologia, parte dos objetivos da cidade e os liga ao orçamento e aos projetos de todas as secretarias. É a forma que este artigo defende.
Na prática, as siglas marcam uma escala de escopo. O PDTI e o PDTIC são planos de informática, voltados à área de tecnologia. O PDTCI e o plano estratégico e diretor são planos da gestão, voltados ao conjunto da cidade.
O nome muda, mas a pergunta de fundo é a mesma: quem decide, o que será feito, com que dinheiro, em que prazo, e como vamos saber se deu certo. Um plano que não responde a essas cinco perguntas de forma contínua é um documento, não um plano.
Mapa de papel no porta-luvas: o documento que nasce para morrer
Governar um município é uma viagem de quatro anos em que todas as estradas passam pela tecnologia. Tratar o PDTI como um documento estático equivale a desenhar a planta elétrica da casa uma única vez e trancá-la na gaveta, ou comprar um mapa de papel, dobrá-lo no primeiro dia e guardá-lo no porta-luvas.
O mapa de papel retrata a estrada no dia em que foi impresso. Na semana seguinte, muda a lei, troca o secretário, fecha uma ponte, abre uma emenda parlamentar ou muda a prioridade da saúde. O papel no porta-luvas não sabe de nada disso. Enquanto a planta velha continua amarelada na gaveta, a prefeitura real ganha extensões, benjamins e fios improvisados para resolver urgências, até o disjuntor cair.
O Estudo Tecnologia (setembro de 2026) examinou 617 contratos municipais localizados no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), em nove temas ligados ao assunto: LGPD, plano diretor de tecnologia, SUS Digital, transparência ATRICON, ODS, IEGM, cidades inteligentes e ISO 37120, captação de recursos e gestão de projetos.
Os números mostram como o mercado funciona hoje:
- A vigência mediana é de 1,00 ano, e 93,7% dos contratos terminam em até doze meses.
- A mediana de valor global é de R$ 49.900,00. O primeiro quartil é de R$ 25.000,00 e o terceiro, de R$ 103.000,00. Abaixo de R$ 60.000,00 estão 59,7% dos contratos com valor informado.
- Foram identificados 337 fornecedores distintos. O máximo observado é de 4 dos 9 temas, por um único fornecedor.
A leitura do estudo é direta: o mercado observado entrega o arquivo e encerra. Um contrato de até doze meses não sustenta linha de base, não acompanha execução e não confronta o projetado com o realizado, porque o horizonte da verificação é maior que o horizonte do contrato.
O cruzamento com os municípios paulistas mostra o mesmo padrão em escala menor. Entre os 47 municípios do universo de 644 localizados no recorte, 35 contrataram um único tema. Quinze dos 20 que declaram não possuir PDTI contrataram um tema que não é plano de tecnologia, como adequação à LGPD ou transparência. E 10 dos 27 que declaram possuir PDTI contrataram a elaboração de um novo PDTIC.
Nada disso é irregularidade. Comprar adequação à LGPD sem PDTI é lícito, e refazer um plano vencido é dever. O que os números mostram é o custo de fazer as coisas separadas: a obrigação é comprada sem o instrumento que a coordena, ou o instrumento existe no papel e ninguém o executa, e a resposta é comprar outro documento.
Do mapa de papel ao quadro de comando e ao GPS: integração contínua sem plano velho
A lacuna que quase nenhum edital trata é esta: a contratação típica compra a elaboração de um documento, e ninguém contrata a manutenção e a gestão dele. Não existe, no desenho da compra, uma ferramenta onde o plano viva depois da entrega, funcionando ao mesmo tempo como quadro de energia inteligente da prefeitura e como GPS da gestão.
Como quadro de comando, essa ferramenta mostra cada circuito por secretaria, quem responde por ele, onde há sobrecarga ou risco de curto e onde a carga está sobrando para redistribuir e fazer mais com menos. Como GPS, ela substitui o plano velho de gaveta por recálculo contínuo de rota: mostra o trânsito em tempo real (indicadores), avisa do pedágio (orçamento), aponta os postos de abastecimento no caminho (emendas e convênios) e coloca todas as secretarias no mesmo mapa, para ninguém pegar o caminho mais longo nem pagar duas vezes pelo mesmo trecho. Sem essa ferramenta, a manutenção do plano depende de planilha, memória e boa vontade. A boa vontade se esgota na rotina de uma prefeitura.
O DIRECITY GOV ocupa esse espaço, mas não é uma ferramenta de PDTI: o PDTI é uma de suas funcionalidades. A plataforma reúne, em 29 módulos organizados em dez frentes (catálogo de agosto de 2026), funções que hoje existem no mercado como ferramentas isoladas e que, separadas, não entregam o que a prefeitura precisa.
O que o gestor precisa é conceber e conduzir os projetos de uma gestão até o impacto real: diagnosticar, priorizar, planejar, captar, contratar, executar, prestar contas e mostrar resultado. A tecnologia é a fiação que atravessa todas essas etapas, e o plano estratégico e diretor de tecnologia e cidade é o mapa e o quadro de comando desse sistema. Ele é um dos fios dessa trama, e só funciona se estiver costurado nos demais. Entre o que a plataforma entrega hoje:
- desenho de projetos e preparação para as normas ABNT NBR ISO 37120, 37122, 37123 e 37125;
- diagnóstico do município, com SWOT, simulação do IEGM nas sete dimensões e análise financeira com dados importados do TCE SP;
- inventário de necessidades com priorização pela matriz GUT, transformado em portfólio de projetos com visão Kanban e Gantt;
- matriz de riscos referenciada à ISO 31000, base de todo o plano, e à ISO 27005 para os riscos de segurança da informação, com mapa de calor;
- checklist de LGPD com evidências por quesito e exportação em PDF;
- acompanhamento de ATRICON e PNTP item a item;
- exportação do plano em formato editável, para o processo administrativo e para o controle externo;
- acompanhamento de emendas parlamentares, convênios federais, propostas do FNS e parcerias do Transferegov;
- painel fiscal com os limites da LRF e pesquisa de preços conforme a IN SEGES 65/2021, com base no PNCP;
- banco de ideias, matriz de vínculos com o plano de governo e estudo de viabilidade de projetos e parcerias público-privadas.
Uma funcionalidade atravessa as demais: a elaboração e a atualização do plano são conduzidas automaticamente pela plataforma, que busca as informações nas fontes oficiais e as submete à validação dos envolvidos. As fontes são o IEGM, a ATRICON, o plano de governo, diagnósticos automatizados, a aderência às normas ISO, o SUS Digital, a LGPD, o SIAFIC e os ODS. A busca automatizada acelera a produção do plano, a execução e a coleta de resultados, encerrando o ciclo de deixar o plano vencer para licitar outro papel. Nada entra no plano sem a validação do comitê e das secretarias, e a plataforma não substitui o guia do SISP, a decisão do município nem a procuradoria. O detalhe de cada fonte está no artigo sobre o Guia de PDTIC do SISP.
A premissa de produto é a tecnologia invisível. O DIRECITY GOV se apoia em conceitos de CX, DX (experiência digital) e experiência do usuário para eliminar a fricção no uso da tecnologia por quem gere o município. O gestor não precisa dominar tecnologia nem inovação: a plataforma o aproxima das melhores soluções e práticas e torna fácil planejar e executar, com ações alinhadas às regras dos órgãos reguladores, apoiadas em normas internacionais e em eficiência. Um dos objetivos é transformar a experiência do cidadão no uso dos serviços públicos: o cidadão passa a receber uma prestação de serviços melhor, e o prefeito colhe uma avaliação melhor. São premissa e objetivo de desenho, e não resultado medido.
O PDTI vivo é o resultado de ligar essas funções em integração contínua. O diagnóstico alimenta o inventário de necessidades; o inventário vira portfólio de projetos; os projetos se conectam a fontes de recurso, a contratações e a indicadores; e o resultado volta ao diagnóstico sem precisar começar do zero a cada ano. Quando cada etapa está em uma ferramenta diferente, a ligação é feita à mão, e é aí que o plano morre.
A comparação que importa não é entre o preço de um documento e o preço de uma licença. O contrato municipal mede o preço de um documento entregue uma vez, e o próprio estudo recusa usá-lo como parâmetro de valor para uma operação continuada. A comparação correta é entre duas formas de comprar, a fragmentada e a integrada.
Os módulos do DIRECITY GOV podem ser contratados separadamente. Mas há economia de escala quando são agrupados e integrados, e a integração faz com que as ferramentas deixem de ser separáveis: o dado de uma sustenta a outra. Quem compra o plano sem o acompanhamento de projetos recebe um documento. Quem compra o acompanhamento de projetos sem o diagnóstico começa do zero. Quem compra captação sem o plano de prioridades capta sem rumo.
O levantamento do estudo no PNCP leva a uma constatação: hoje não existe, no mercado, uma ferramenta que reúna todos esses módulos e funcionalidades com integração total. O PNCP é a fonte oficial, e a divulgação de editais e contratos nele é obrigatória desde a Lei 14.133/2021; partindo do princípio de que os entes cumprem a lei, é lá que a informação está. O que existe são soluções por tema, e cada uma é, na prática, uma funcionalidade de uma aplicação muito maior. Para atender a prefeitura por esse caminho, seria preciso comprar cada ferramenta separadamente, comprar uma plataforma de integração, comprar o trabalho de customizar e integrar tudo, e ainda assim correr o risco de o conjunto não atender. Essa é a conta que raramente aparece no estudo técnico preliminar, e que a integração nativa e o ganho de escala eliminam.
| Compra fragmentada (plano velho) | Plataforma em integração contínua | |
|---|---|---|
| O que se entrega | Um documento ou uma ferramenta por tema | Módulos que compartilham diagnóstico, projetos e indicadores |
| Contratos | Um por tema, com vigência de até 12 meses em 93,7% dos casos observados | Um instrumento, com ciclo contínuo de revisão e recálculo de rota |
| Dados | Cada ferramenta com os seus | Uma base única, atualizada pela rotina |
| Atualização do plano | Nova contratação quando o papel vence | Rotina da equipe, como um GPS |
| Prova de execução | Ausente | Evidência por ação, responsável e prazo |
| Captação de recursos | Anexo de proposta | Base viva de demanda e de prestação de contas |
Quando o município já tem uma contratação em curso ou prevista, como uma assessoria técnica, o formato que resolve o problema jurídico e o prático é a assessoria técnica assistida por plataforma: o objeto contratado continua sendo o serviço que o município queria comprar, e a plataforma entra como instrumento de execução, incluída no preço desse serviço. O gestor pode pedir, no estudo técnico preliminar, que seja registrada como alternativa avaliada a solução que mantém o plano vivo e o liga ao restante da gestão.
Planos que só listam compras
Existe um segundo tipo de plano morto, e ele convive com o primeiro: o plano que é, na prática, uma lista de compras. Servidores, notebooks, licenças, links, um sistema novo. Tudo isso é necessário. Mas um plano que só enumera equipamento e software parte da premissa de que o problema é falta de ferramenta.
Os dados do tribunal sugerem outra coisa. O município paulista tem ferramenta e não tem governança sobre a fiação que instalou:
- 98,9% (637 de 644) têm software de gestão de processos, e 97,0% (625 de 644) oferecem serviço online.
- 55,1% (355 de 644) não têm política de segurança da informação.
- 78,6% (506 de 644) não regulamentaram a Lei de Governo Digital.
- 65,5% (422 de 644) não designaram encarregado de dados pessoais.
Compra-se mais do que se governa. Puxam-se fios novos pela casa inteira sem instalar disjuntor nem identificar os circuitos. O PDTI de prateleira acrescenta itens ao inventário e deixa intactas as perguntas sem dono: quem responde pela segurança, quem decide a prioridade entre duas demandas, quem presta contas do contrato. Um plano estratégico e diretor de tecnologia e cidade precisa tratar de governança, pessoas, processos, dados e contratos, e só depois de equipamento. É a diferença entre o plano de informática, que lista o que comprar, e o plano do sistema nervoso da cidade, que define como tudo se conecta e quem responde por isso.
O que é, de fato, um PDTI vivo
Um PDTI vivo se reconhece por cinco características.
- Tem dono: um responsável nomeado e um comitê com as secretarias, não "a TI".
- Tem linha de base e indicadores: parte de um diagnóstico datado e mede evolução contra ele.
- Está ligado ao orçamento e às contratações: cada ação aparece no plano de contratações anual da Lei 14.133/2021 ou tem fonte de recurso identificada. Plano sem dinheiro é intenção.
- Rastreia a execução: cada prioridade vira projeto com responsável, prazo, entrega e evidência.
- Sobrevive à troca de gestão: está em ferramenta institucional, com histórico e acesso, e não na cabeça de quem saiu.
O relatório do estudo resume a proposta numa frase que vale para os dois pontos de partida possíveis: o município precisa de um método que converta prioridade em ação com responsável, evidência e resultado verificável, e não de mais um documento aprovado, tanto onde o plano ainda não existe quanto onde ele já existe e não está sendo executado.
O que muda quando o plano é da cidade
Ampliar o escopo não é acrescentar capítulos. É colocar todas as secretarias no mesmo quadro de comando e no mesmo mapa, mudando quem participa, o que se inventaria e como se prioriza.
- Quem participa: o comitê inclui as secretarias finalísticas, o planejamento, as finanças, o controle interno e o encarregado de dados, e não só a área de tecnologia.
- O que se inventaria: as necessidades de cada secretaria, escritas como problema público, serviço e dado envolvido, e não como item de compra.
- Com o que se alinha: o plano de governo, o plano plurianual, a LDO e a LOA, os ODS e os indicadores de cidade e do IEGM.
- Como se prioriza: por impacto para o cidadão e por risco, com a mesma matriz para todas as áreas.
- Como se acompanha: pela carteira de projetos da cidade, com responsável em cada secretaria, e não pela carteira da área de tecnologia.
Dois casos mostram que o escopo de cidade é viável. Em Pindamonhangaba, o PDTCI 2023 a 2027 foi conduzido por um comitê com representantes de várias áreas, instituído por portaria, com 24 necessidades de diferentes secretarias priorizadas pela matriz GUT e integradas à LDO e à LOA. Em Osasco, o Plano Estratégico de Tecnologia para Cidades Inteligentes (PETCI), versão 1.0 de março de 2024, reúne 161 projetos, dos quais 117 (72,7%) pertencem a áreas que não são a Secretaria de Tecnologia. Esse número mostra o tamanho do que um plano só de tecnologia deixaria no escuro. O PETCI é um plano, e o estudo não verificou a execução dos seus projetos. Os dois casos estão detalhados nos artigos 15 e 16 desta série.
O escopo amplo tem um risco: pesar mais do que a equipe aguenta. A mitigação é declarar a abrangência no início e avançar por etapas, começando pelas secretarias prioritárias. Para o município pequeno, o caminho está no artigo sobre PDTI com uma pessoa na equipe.
O plano como base de captação de recursos
Um plano vivo é, antes de tudo, uma base de demanda organizada. No GPS da gestão, emenda parlamentar, convênio, recurso do Fundo Nacional de Saúde, parceria no Transferegov e financiamento são os postos de abastecimento da viagem. Todos pedem diagnóstico, justificativa, prioridade, cronograma e responsável. O município que tem um inventário de necessidades priorizado e atualizado monta proposta em dias. O que tem uma pasta de PDFs monta em semanas, ou perde o prazo.
Há ainda a metade da captação que costuma ser esquecida: executar e prestar contas. Recurso formalizado e sem movimentação é a forma mais cara de ter dinheiro parado. Um plano que acompanha projetos com prazo e responsável enxerga a emenda empenhada sem pagamento, o convênio que vence, a prestação de contas que se aproxima. É o que a prática de "achar dinheiro dentro do dinheiro" tem de mais concreto: antes de pedir mais, enxergar o que já foi conquistado e está parado.
Neste ponto, o DIRECITY GOV acompanha emendas parlamentares, convênios federais, propostas do FNS e parcerias do Transferegov por código IBGE do município, e cruza isso com o plano e com o orçamento.
Planejamento e execução transversais: sincronia para fazer mais com menos
Tecnologia atravessa todas as secretarias. O dado do tribunal mostra onde a fiação para: nas áreas-meio, a informatização é alta, com Compras em 96,8% e Tributos em 92,0%. Nas áreas finalísticas, cai: Saúde em 42,0% e Ensino em 43,7%. E 410 dos 644 municípios não têm sistema de informações de saneamento.
Quando cada secretaria contrata e opera isolada, duas pastas pagam duas vezes pelo mesmo trecho de estrada ou disputam a mesma equipe e a mesma infraestrutura sem coordenação. Um PDTI transversal coloca a saúde, a educação e a arrecadação no mesmo painel, redistribuindo a carga que sobra em um ponto para cobrir o circuito sobrecarregado. Com a mesma equipe e o mesmo orçamento, a prefeitura entrega mais.
Há uma questão de responsabilidade que raramente entra na conversa: terceirizar a execução de um serviço não terceiriza a obrigação de geri-lo. Se o sistema de saneamento, a plataforma de saúde ou o portal de transparência é operado por um fornecedor, o ente continua responsável por saber o que está acontecendo ali. O plano é onde essa gestão fica registrada.
A dependência invisível
Quanto da prefeitura para se a tecnologia parar por três dias? Arrecadação, folha, empenho, prontuário, matrícula, emissão de alvará, atendimento ao cidadão. A infraestrutura digital funciona como a fiação dentro da parede ou como o asfalto: ninguém a nota enquanto funciona, e o que ninguém enxerga ninguém governa.
Os números mostram uma dependência alta com sustentação baixa:
- 155 dos 644 municípios não têm setor de TIC.
- 234 não têm nenhum servidor concursado na área.
- 237 dos 391 municípios pequenos, 60,6%, operam com zero ou uma pessoa em tecnologia.
- 235 dos 489 municípios que responderam à pergunta não oferecem capacitação em TI.
Essa é a dependência invisível, a do sistema nervoso que ninguém mapeou: o governo depende de sistemas, contratos e fornecedores que ninguém no organograma é responsável por acompanhar. Um PDTI vivo torna visível o que estava oculto. Mapeia sistemas e contratos, identifica quem responde por cada um, avalia risco, define o que deve ser contingenciado e coloca isso num painel que o gestor consulta.
Seis perguntas que todo prefeito, secretário ou controlador interno pode fazer hoje:
- Quais sistemas sustentam os serviços críticos, e quem responde por cada um?
- Quando vence cada contrato de tecnologia, e o que acontece no dia seguinte?
- Existe política de segurança da informação aprovada e conhecida?
- O último backup foi restaurado em teste?
- Quem é o encarregado de dados pessoais e o que ele já entregou?
- O PDTI vigente está publicado, datado e em execução?
Se três ou mais respostas forem "não sei", a dependência é invisível e a prefeitura opera no escuro.
O que os dados dizem e o que não dizem
Com o mesmo combustível no tanque, chega mais longe quem organiza a viagem. O estudo comparou municípios com e sem PDTIC declarado quanto à chance de estarem em faixa B ou superior no IEGM:
| Porte | Com PDTIC | Sem PDTIC | Diferença |
|---|---|---|---|
| Total (644) | 25,8% (61 de 236) | 9,6% (39 de 408) | +16,3 pontos percentuais |
| Pequeno | 25,0% | 9,4% | +15,6 pp |
| Médio | 21,7% | 11,3% | +10,4 pp |
| Grande | 46,2% | 0,0% | +46,2 pp |
A associação existe e se mantém na estratificação por porte, com significância estatística no total, nos pequenos e nos grandes (nos médios, p = 0,063). É uma associação, não uma causalidade: a leitura defensável é que o PDTIC funciona como marcador de capacidade de gestão. Municípios que organizam o plano tendem a ser municípios que organizam o resto.
Há também uma ressalva que fortalece a tese em vez de enfraquecê-la. Entre os 124 municípios com i-Gov TI A ou B+, 77 (62,1%) seguem com IEGM geral em C ou C+. Boa governança de TI ajuda e não basta. É por isso que o plano precisa estar ligado à execução e ao resultado, e não só à conformidade documental.
Duas limitações do estudo precisam ser ditas. A primeira: ele mede o PDTIC declarado, que é plano de tecnologia. Que o plano ampliado, de tecnologia e cidade, produza mais resultado é a hipótese deste artigo, e não um dado medido. A segunda: o estudo conta planos, não os julga. O escore de aderência a um checklist de 25 práticas não mede qualidade, e nenhum ranking foi publicado.
Como começar, em cinco passos
- Descubra onde você está: olhe por dentro da parede e verifique se o município tem plano vigente, publicado e identificável. Se não tem, o ponto de partida é construir. Se tem, o ponto de partida é tirar da gaveta e executar. Em ambos os casos, pergunte se o plano é só da área de tecnologia ou da cidade inteira.
- Instale o quadro de comando: declare a abrangência, nomeie o dono e o comitê com as secretarias finalísticas à mesa.
- Ligue o GPS dos projetos: converta prioridades em projetos, cada ação com responsável, prazo, entrega, critério de aceite e indicador.
- Conecte o plano ao orçamento e à captação: plano de contratações anual, fontes de recurso e emendas mapeadas contra as prioridades.
- Mantenha a integração contínua: revise o painel toda semana na operação, trimestralmente no comitê, anualmente no orçamento e a cada troca de gestão para a transição, sem deixar o plano virar papel velho.
E, na próxima contratação, mude o termo de referência. Peça que o plano seja entregue em formato editável e em ferramenta de acompanhamento; que a vigência cubra pelo menos um ciclo de execução; que haja linha de base e indicadores; que os dados e o histórico permaneçam com o município; que o objeto declare o escopo, de tecnologia e cidade ou só de tecnologia, e a etapa em que cada secretaria entra; e que o estudo técnico preliminar registre, como alternativa avaliada, a solução que mantém o plano vivo.
O município paulista médio já tem fios e softwares. Falta o quadro de comando para governar o que instalou, o GPS para recalcular a rota durante a viagem dos quatro anos e o método para enxergar aquilo de que depende. Quando 83,9% da nota de efetividade da gestão municipal no IEG-M depende de tecnologia, tratá-la como assunto menor da informática é escolher governar no escuro.
O PDTI vivo aposenta o documento que nasce para morrer na gaveta. A tecnologia é a fiação e o sistema nervoso da prefeitura: capta, transmite, apoia a decisão e executa o que o cidadão vê. Um sistema assim pede um plano estratégico, que diga para onde a cidade vai, e diretor, que diga como a tecnologia se organiza para levá-la até lá, com dono, orçamento, projeto e prova de execução.
O DIRECITY GOV existe para isso e vai além do PDTI: reúne, em uma plataforma integrada, os módulos que hoje o município compra um a um, e conduz a elaboração e a atualização do plano a partir de fontes oficiais, com validação dos envolvidos, para que o gestor conceba e conduza os projetos da gestão até o impacto real. O ganho está na integração contínua, com a tecnologia invisível para quem gere: o prefeito planeja, ajusta a rota e executa com a mesma equipe e o mesmo orçamento, fazendo mais com menos para entregar serviço na ponta ao cidadão.
Sobre o autor. Danilo Velloso é fundador e CEO da Ana Smart Solutions, empresa GovTech que desenvolve o DIRECITY GOV, plataforma de governança municipal. Foi Personalidade da Tecnologia 2025 pela Elite Academy.
Continue a série
- O que é PDTI, PDTIC e PDTCI: diferença e qual usar
- Contratação de PDTI na prefeitura: e depois, quem mantém?
- Plano diretor de TI do município: 7 sinais de alerta
- PDTI e captação de recursos: emendas e convênios
- Governança de TI na prefeitura: do plano às secretarias
- Segurança da informação na prefeitura: política e riscos
- IEGM i-Gov TI: o que o PDTIC muda em 644 municípios
- Plano de contratações anual de TIC: ligue o PDTI ao PCA
- Termo de referência de elaboração de PDTI: 10 cláusulas
- Transição de governo municipal: o plano que sobrevive
- PDTI para município pequeno: como fazer com uma pessoa
- Plataforma de planejamento municipal: integrada ou isolada?
- Dependência de tecnologia na prefeitura: 644 municípios
- Modelo de PDTI: por que copiar um não resolve
Artigos complementares:
- Plano estratégico de tecnologia para cidades inteligentes: Osasco e Pindamonhangaba
- Guia de PDTIC do SISP: por que usá-lo como base do plano do município
Fontes
- Estudo Tecnologia e Relatório Final PEDTC, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base em respostas ao questionário i-Gov TI e ao IEGM, exercício 2024, exportação oficial do TCE SP.
- Contratações municipais localizadas no Portal Nacional de Contratações Públicas, recorte de nove temas.
- Lei 14.133/2021, Lei de Licitações e Contratos Administrativos.
- Lei 13.709/2018, Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.