Em uma prefeitura, o setor de tecnologia aparece no organograma como uma caixa entre outras, ao lado de compras, administração ou finanças. Na prática, toda secretaria depende dele: arrecadação, folha, empenho, prontuário, matrícula, alvará, atendimento. A tecnologia atravessa o organograma, e o plano que a organiza precisa atravessá-lo também. Por isso a governança de TI na prefeitura é assunto de todas as secretarias, e não só do setor de tecnologia.
Onde a integração para
O Estudo Tecnologia, da Ana Smart Solutions (setembro de 2026), mediou a integração dos sistemas à contabilidade nos 644 municípios paulistas, a partir das respostas ao i-Gov TI, exercício 2024:
| Área | Integração à contabilidade |
|---|---|
| Compras | 96,8% |
| Tributos | 92,0% |
| Ensino | 43,7% |
| Saúde | 42,0% |
A integração é alta nas áreas-meio e cai nas áreas finalísticas, que são justamente as que atendem o cidadão. São 338 municípios com saúde ilhada, 247 com ensino ilhado e 220 com as duas áreas. O ilhamento é maior entre os grandes: 74,4% de saúde ilhada contra 56,3% dos pequenos. E 410 dos 644 municípios não têm sistema de informações de saneamento.
Um plano escrito pela TI para a TI não enxerga isso, porque organiza o que a TI conhece, e a TI conhece melhor as áreas-meio do que as finalísticas.
Governança de TI na prefeitura: o que é um plano transversal
Um plano transversal tem quatro características.
Primeiro, é construído com as secretarias. O diagnóstico parte de cada uma: o que precisa resolver, que sistema usa, onde os dados ficam presos. A TI traduz, mas não decide sozinha.
Segundo, é priorizado pelo impacto no cidadão. A ordem não segue a facilidade técnica, segue o efeito sobre o serviço.
Terceiro, é executado por projetos que atravessam o organograma. A integração entre saúde e contabilidade não é projeto da saúde nem da contabilidade, é de ambas e da TI.
Quarto, é governado por um comitê. A Lei 14.133/2021, no parágrafo único do artigo 11, atribui à alta administração a responsabilidade pela governança das contratações, o que inclui a gestão de riscos e os controles internos. Um comitê com poder de decisão é o jeito mais simples de cumprir isso em tecnologia.
Terceirizar a execução não terceiriza a responsabilidade
Esse ponto raramente entra na conversa. Quando um serviço, como o sistema de saneamento, a plataforma de saúde ou o portal de transparência, é operado por um fornecedor, o ente continua responsável por geri-lo. Atribuir a execução a terceiro não elimina a responsabilidade total do ente sobre o serviço e sobre os dados.
O plano é o lugar onde essa gestão fica registrada: qual sistema sustenta qual serviço, quem responde por ele, quando vence o contrato, e o que acontece no dia seguinte.
Um aviso de leitura
Integração entre sistemas não é garantia de nota nem de resultado. No estudo, a integração prediz de forma modesta o desempenho em i-Fiscal, com cerca de 8,8 pontos percentuais para controle interno e 8,6 para dívida ativa, e não prediz o desempenho em i-Saúde nem em i-Educ. O que o dado sustenta é que a ausência de integração é um fato da gestão que merece plano, e não que integrar eleve a nota por si.
Para quem quer aprofundar, o TCE SP publica um artigo que analisa a evolução do i-Gov TI nos municípios paulistas.
Como começar
- Monte o comitê, com um representante de cada secretaria finalística, um da TI, um das finanças e um do controle interno.
- Faça o inventário por secretaria: sistemas, contratos, dados, responsáveis.
- Mapeie as ilhas, ou seja, os sistemas que não conversam com a contabilidade nem entre si.
- Monte uma carteira única de projetos, com prioridade, dependências, prazo e responsável.
- Reúna o comitê em ritmo fixo, uma vez por mês, com um painel único.
Esses cinco passos são trabalho de rotina, e rotina pede ferramenta. Em uma plataforma integrada como o DIRECITY GOV, o inventário, a carteira de projetos, os riscos e os indicadores ficam no mesmo ambiente, e o comitê decide olhando a mesma tela.
Perguntas frequentes
O que é um plano de tecnologia transversal?
Um plano construído com as secretarias, priorizado pelo impacto no cidadão, executado por projetos que atravessam o organograma e governado por um comitê.
Terceirizar o sistema terceiriza a responsabilidade?
Não. Quando o serviço é operado por um fornecedor, o ente continua responsável por geri-lo, e pelos dados.
Integrar os sistemas eleva a nota do IEGM?
Não por si. No estudo, a integração prediz de forma modesta o desempenho em i-Fiscal, e não prediz o desempenho em i-Saúde nem em i-Educ.
Fontes
- Estudo Tecnologia e Investigação sobre Integração de Sistemas, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base nas respostas ao i-Gov TI, exercício 2024, exportação oficial do TCE SP.
- Lei 14.133/2021, artigo 11, parágrafo único.
- TCE SP, artigo sobre a evolução do i-Gov TI nos municípios paulistas.