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Tecnologia e Cidades Inteligentes

A prefeitura digitalizada não pode parar

28 out 20268 min de leituraPor Danilo Velloso, fundador e CEO da Ana Smart SolutionsArtigo de opinião

A prefeitura já depende de tecnologia para arrecadar, pagar, comprar, prestar contas e atender. Se um sistema essencial sai do ar, o problema não fica no departamento de informática. Pode interromper serviços, atrasar obrigações, bloquear decisões e deixar o cidadão sem resposta. Para uma administração que digitalizou seus processos, continuidade não é um luxo técnico. É parte da capacidade de governar. O prefeito não tem uma opção realista de voltar a uma gestão inteiramente manual. O município precisa operar sistemas de contabilidade, transmitir dados fiscais, gerir folha, compras, saúde, educação, transparência e atendimento. Algumas obrigações já dependem diretamente de sistemas. O Decreto nº 10.540/2020, por exemplo, define o SIAFIC como solução de tecnologia da informação mantida e gerida pelo Executivo, usada pelos Poderes e órgãos do ente, e exige cópia de segurança da base que permita recuperação após falha ou incidente, preferencialmente diária. A escolha que resta à gestão é outra: reconhecer essa dependência e preparar a cidade para falhas, ou descobrir as consequências durante uma crise. O decreto exige cópia recuperável, mas não nomeia um plano municipal geral de continuidade como documento obrigatório. Isso não torna o planejamento dispensável. Sem responsáveis, prioridades, procedimentos de resposta e testes, uma cópia pode existir e ainda assim não devolver o serviço quando a população precisa dele.

A cidade funciona 24×7, mesmo quando o expediente termina

Prefeitura aberta 24 horas por dia não significa balcões presenciais funcionando a noite toda. Significa reconhecer que a cidade não pausa quando o expediente acaba. A rede de saúde mantém plantões, a defesa civil recebe alertas, serviços urbanos respondem a ocorrências, sistemas registram transações e o cidadão pode precisar consultar uma informação ou iniciar um pedido fora do horário comercial. Quando esses serviços dependem de plataformas digitais, a infraestrutura pública precisa estar preparada para operar continuamente.

O atendimento digital cria essa expectativa. Um portal pode receber solicitações de madrugada; uma integração pode processar dados enquanto as equipes estão fora; uma falha pode começar no fim de semana e só ser percebida quando já afetou vários setores. Sem monitoramento, escala de resposta e procedimentos de contingência, a prefeitura pode passar horas sem saber que o serviço caiu. O plano 24×7 define quem recebe o alerta, quem decide a prioridade, como aciona fornecedores e qual alternativa mantém cada serviço essencial até a recuperação.

A operação contínua não exige que todos trabalhem o tempo todo. Exige que os serviços críticos tenham cobertura, responsáveis de plantão ou acionáveis, níveis de serviço pactuados e testes que comprovem a recuperação. A administração precisa decidir quais serviços não podem esperar até o próximo dia útil, quanto tempo cada um pode ficar indisponível e como avisar a população quando houver interrupção.

O que falha junto com o sistema

Uma prefeitura digitalizada conecta atividades que antes pareciam separadas. A indisponibilidade do sistema contábil pode comprometer consultas e registros fiscais. A queda de plataformas de saúde pode dificultar o acesso a dados e a continuidade do atendimento. Uma falha no portal ou no processo eletrônico pode atrasar solicitações, licitações, pagamentos e publicações. Se os dados forem alterados, apagados ou expostos, a administração ainda precisa saber o que foi afetado, quem deve ser informado e como restabelecer os registros corretos.

O TCU descreve essa dependência com clareza: a transformação digital torna órgãos públicos dependentes de softwares, bases de dados e sistemas críticos para o funcionamento do governo. A orientação do Tribunal para continuidade de TI inclui papéis, estratégias de resposta, análise de impacto, testes e revisão periódica. O plano precisa refletir os serviços da instituição, não apenas a infraestrutura do fornecedor.

O estudo do projeto sobre o IEG-M ajuda a dimensionar a transversalidade. A classificação analisou 894 quesitos distribuídos nas dimensões de gestão municipal. Identificou que indicadores fiscais e de planejamento dependem de dados transmitidos eletronicamente, enquanto serviços digitais e registros estruturados apoiam rotinas de saúde, educação, tecnologia e outras áreas. Os percentuais de dependência tecnológica do estudo são uma classificação analítica própria, não uma métrica oficial do TCESP nem uma avaliação de que determinado município esteja pronto ou vulnerável. A mensagem operacional é direta: a tecnologia sustenta o trabalho de várias secretarias ao mesmo tempo.

O risco aparece na vida do cidadão e na reputação do governo

Quando uma plataforma cai, o cidadão vê a fila parar, a consulta não aparecer, o protocolo desaparecer ou o pagamento atrasar. Mesmo que a causa inicial esteja em um fornecedor, a prefeitura continua sendo a instituição que precisa explicar o impacto e organizar a resposta. Se a administração demora a informar, não sabe quais serviços foram atingidos ou apresenta versões contraditórias, a falha técnica se transforma em crise de confiança.

A exposição também pode envolver dados pessoais. A ANPD esclarece que incidentes incluem não só vazamentos, mas também perda, alteração, acesso indevido e indisponibilidade de dados. Se o incidente confirmado envolver dados pessoais e puder causar risco ou dano relevante, o controlador deve comunicar a ANPD e os titulares no prazo previsto no regulamento, em regra três dias úteis. A avaliação depende do caso. A ANPD também considera as medidas de mitigação e a comunicação transparente.

Há risco político porque o governo é julgado pela entrega e pela resposta. Um serviço indisponível em uma semana comum já gera reclamação. Uma interrupção durante uma enchente, uma epidemia, o fechamento de contas ou a execução de um contrato estratégico pode expor a falta de preparação de forma imediata. A confiança demora a ser reconstruída quando o cidadão descobre o problema antes da própria administração.

O TCU encontrou, em auditoria federal divulgada em 2026, fragilidades nos controles contra golpes que usam a identidade de órgãos públicos. Entre janeiro e setembro de 2025, o CTIR Gov identificou 855 páginas falsas e 572 ocorrências de phishing ligadas à personificação governamental. Esses dados são federais e não medem a situação das prefeituras. Eles mostram, porém, como canais digitais frágeis podem ser explorados e como a confiança nos serviços oficiais pode ser afetada.

O prefeito não escolhe se o governo dependerá de tecnologia

A dependência já está embutida nas obrigações, nos sistemas compartilhados e na expectativa de atendimento. O prefeito pode decidir se a continuidade será tratada como parte da gestão, com orçamento, responsáveis, prioridades e exercícios, ou se ficará como uma cláusula genérica no contrato de TI. A primeira opção custa planejamento e disciplina. A segunda deixa o município sem saber quanto tempo pode ficar parado, quais serviços precisam voltar primeiro ou se os dados recuperados são confiáveis.

Um plano útil começa pelos serviços essenciais e suas dependências: sistemas, bases, pessoas, fornecedores, conectividade, energia e integrações. A análise define impacto tolerável e ordem de recuperação. O município precisa testar cópias e restauração, documentar procedimentos alternativos, manter contatos de crise e estabelecer como comunicará servidores e cidadãos. Depois de cada exercício ou incidente, deve corrigir o que falhou. Backup sem restauração testada é uma expectativa, não uma garantia operacional.

A responsabilidade precisa ser tratada com precisão. O Decreto 10.540 atribui ao Executivo deveres de gestão do SIAFIC e determina a recuperação da base. A LGPD prevê obrigações para controladores de dados em incidentes relevantes. Mas uma falha não gera automaticamente responsabilização pessoal do prefeito. Isso depende dos deveres aplicáveis, das decisões e omissões concretas, das evidências e do devido processo. A liderança política, ainda assim, precisa assegurar que a instituição tenha governança, recursos e supervisão compatíveis com os serviços que decidiu digitalizar.

O DIRECITY GOV parte dessa realidade: se a tecnologia atravessa as áreas da prefeitura, o planejamento também precisa atravessá-las. Inventário, risco, orçamento, continuidade, responsáveis e evidências têm de conversar. Um plano tecnológico que só enumera compras não responde à pergunta que aparece no dia da crise: como o serviço público continua e em quanto tempo volta?

Digitalizar sem preparar a continuidade transfere o risco para o cidadão e para a próxima equipe de governo. A prefeitura não pode escolher deixar de depender da tecnologia. Pode escolher conhecer essa dependência, reduzir seus pontos únicos de falha e provar, antes do incidente, que sabe recuperar os serviços de que a cidade precisa.

Referências

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